A entrevista do candidato a governador Marcelo Trindade ao AVS

Advogado e professor universitário quer cortar as despesas em R$ 9 bilhões e estimular PPPs
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
por Alerrandre Barros (alerrandre@avozdaserra.com.br)
Marcelo Trindade caminha no Maracanã (Foto: Marcos André Pinto)
Marcelo Trindade caminha no Maracanã (Foto: Marcos André Pinto)

Marcelo Trindade não promete isenções fiscais às empresas, mas diz que vai trabalhar para melhorar o ambiente de negócios, atrair investimentos privados para a infraestrutura e cuidar da segurança. Quer cortar as despesas do estado em R$ 9 bilhões, até 2022, e estimular parcerias com o capital privado.

Advogado e professor de direito na PUC-Rio, o carioca de 53 anos fala ainda de planos para o turismo, geração de empregos no interior e afirma que vai privatizar rodovias estaduais. Trindade quer também propor que alunos ricos das universidades do estado paguem uma contribuição para financiar as instituições.

Marcelo dirigiu a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o órgão federal que regula e fiscaliza o mercado de capitais, e concorre a um cargo eletivo, pela primeira vez, pelo partido Novo. Tem 2% das intenções de voto, segundo pesquisa recente do Datafolha. Declarou patrimônio de R$ 83 milhões. É o mais rico na disputa. Casado, tem três filhos.

Trindade é o quinto entrevistado dos 12 candidatos ao governo do estado convidados por A VOZ DA SERRA a responder às mesmas perguntas sobre Nova Friburgo e a Região Serrana.


AVS: O próximo governador assumirá o estado com um rombo estimado este ano de R$ 10 bilhões nos cofres. Como planeja sanear as contas do estado?
Marcelo Trindade: Vamos fazer o que toda empresa ou pessoa responsável faz em casa quando a despesa fica maior do que a receita. Estimamos cortes de R$ 9 bilhões, de 2019 a 2022. Propomos um choque de eficiência para fechar os ralos do desperdício. Vamos cortar secretarias, extinguir ou reestruturar autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista.

O Rio de Janeiro tem a maior taxa de desemprego do Sudeste. São cerca de 1,2 milhão de pessoas procurando uma oportunidade, segundo a Pnad/IBGE. Como gerar novas vagas?
O estado tem tudo para conciliar uma intensa geração de empregos nas áreas de turismo, cultura e eventos com o desenvolvimento da atividade em novas tecnologias, por conta do capital humano, da pesquisa nas universidades e do investimento obrigatório das petroleiras em inovação. Nossa população tem talento para o empreendedorismo, mas precisa de um estado menor, focado no que interessa, muito menos burocrático, digital e que presuma verdadeiras as declarações dos cidadãos.

Moda íntima, indústrias metal-mecânicas, comércio, construção civil e agricultura são motores de Nova Friburgo. Seu futuro governo planeja algum tipo de incentivo para incrementar a economia da Região Serrana?
Essa região tem enorme potencial em todas essas áreas, além do turismo. Pode ter um ciclo de desenvolvimento grandioso quando o governo estadual entender a importância de diversificar a economia. Prometer mais isenções não é honesto, o estado está quebrado. Mas podemos melhorar o ambiente de negócios, atrair investimentos privados para a infraestrutura e, acima de tudo, cuidar da segurança.

O estado está sob intervenção federal na segurança há seis meses. Como evitar a fuga de criminosos da capital para o interior?
Em visitas aos generais Braga Netto e Richard Nunes, conheci detalhes dos resultados da intervenção. São positivos, mas é um processo em curso e precisa ser continuado, sem pressões políticas. Defendo um modelo de segurança focado em estabilidade dos comandos, gestão e planejamento. Além disso, precisamos de tecnologia para elucidar crimes e manter o bandido preso. Se tivéssemos investido em tecnologia, há mais tempo, muitos desses bandidos que estão indo para o interior já teriam sido presos. Vamos nos inspirar em todas as experiências nacionais e internacionais de monitoramento para reverter essa tendência.

O Hospital Municipal Raul Sertã, em Nova Friburgo, é uma referência para a região, recebe pacientes de 13 municípios, mas enfrenta dificuldades. Seu governo planeja estadualizar a unidade ou tem algum plano para melhorar o atendimento de urgência?

Vamos redefinir áreas de atendimento, vincular os moradores de cada região a uma rede de prestação de serviços específica sob o comando de um hospital de referência, com tecnologia e técnicas de gestão. Nosso foco será nos cuidados primários, na saúde familiar. A prevenção melhora serviços, reduz custos e a pressão sobre unidades como o Raul Sertã. A tecnologia pode melhorar muito o atendimento.

A UPA da cidade não recebe a parte dos recursos que cabe ao governo do estado, há mais de três anos. A prefeitura tem mantido a unidade 24 horas com recursos próprios, junto com o governo federal. Qual o seu plano para as UPAs?
O dinheiro da UPA precisa chegar à UPA. Em um governo sério, sem indicações baseadas só em interesses políticos para cargos na área da saúde, as UPAs estarão efetivamente integradas às áreas de atendimento e cumprirão seu papel de triagem e bom atendimento de emergência sob coordenação dos hospitais de referência.
  
E quanto ao Hospital do Câncer, cuja obras em Nova Friburgo estão paralisadas desde 2016?
Os hospitais especializados são uma das prioridades de nosso programa, porque neles o treinamento dos médicos e a eficiência na gestão dos recursos decorrente dos ganhos de escala leva à substancial melhoria da qualidade do atendimento.

Nova Friburgo conta com um campus da Uerj, o Instituto Politécnico do Rio de Janeiro (IPRJ). Como tirar as universidades estaduais (Uerj, Uenf e Uezo) dessa crise sem precedentes?
As universidades têm um papel fundamental na retomada do desenvolvimento do Rio, são nossa grande vantagem competitiva. Mas precisam realizar parcerias com o capital privado. Também defendo viabilizar a contribuição pelos alunos mais ricos, que podem ajudar no financiamento do ensino superior. Seria um ato de justiça social, pois a falta de verbas impede o acesso dos mais pobres, que hoje subsidiam, com seus impostos, o estudo gratuito de quem poderia pagar.

Friburgo, Teresópolis e Petrópolis são os principais destinos turísticos do estado para quem curte um friozinho. Qual seu plano para alavancar o setor turístico na região?
Defendo um amplo plano de concessão de novas rodovias e serviços de transporte supervisionados por agências reguladoras fortes, independentes e competentes. Nosso estado só tem dois trechos pequenos de rodovias concedidas. Em São Paulo, são impressionantes a quantidade de rodovias e a riqueza que elas criam no interior. Temos que estimular a permanência no interior do estado dos turistas que visitam a capital, qualificar mão de obra, promover e valorizar o meio ambiente, a cultura e o esporte, recuperar os passivos ambientais. Mas, de todos os inimigos do turismo, o maior é a violência. Melhorar a segurança pública é fundamental.

Depois da tragédia climática de 2011, Friburgo recebeu importantes obras de contenção de encostas, habitação e canalização pluvial, como a do Rio Bengalas. Outras ainda faltam ser executadas na cidade. Você pretende fazer alguma mudança na política atual de prevenção a desastres naturais na serra?
É prioritário cumprir o plano de recuperação fiscal e reduzir as despesas do governo para, então, retomar projetos prioritários. Com a implementação do choque de eficiência que planejamos para os órgãos do estado, vamos recuperar a capacidade de gestão e ampliar o intercâmbio com a gestão dos municípios, agilizar e ampliar as ações preventivas para evitar tragédias. O estado tem importante papel indutor da atuação dos municípios nesse tema e deve exercê-lo.
 

Friburgo perdeu o escritório regional do Ibama, que tinha importante papel na fiscalização do desmatamento. A cidade conta agora com o trabalho do Inea e da prefeitura, mas ambos sofrem pressões políticas. O que seu governo fará para evitar a redução da Mata Atlântica, que cobre 45% do território friburguense, segundo o SOS Mata Atlântica?
As florestas regulam o ciclo hidrológico e a qualidade da água dos rios, reduzem o risco de enchentes, inundações, erosão e assoreamento dos rios. Mais uma vez, é a boa gestão, com investimento em tecnologia, que vai fazer a diferença na conservação das 26 unidades de conservação estaduais. São parques, reservas biológicas, estações ecológicas e áreas de proteção ambiental importantíssimas. Essas unidades ainda estimulam o turismo, criam empregos.

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