A entrevista do candidato a governador André Monteiro ao AVS

Policial militar do Bope quer cortar regalias e rever renúncias fiscais concedidas às empresas
terça-feira, 04 de setembro de 2018
por Alerrandre Barros (alerrandre@avozdaserra.com.br)
A entrevista do candidato a governador André Monteiro ao AVS

O subtenente do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar, o “caveira” André Monteiro, 47 anos, diz que que o estado tem recursos, mas precisa cortar “regalias, mordomias e desperdícios” para equilibrar as contas. Ele quer estimular o empresariado e afirma que, se eleito, fará uma varredura nos benefícios fiscais. Seu foco principal é segurança pública.

Bacharel em direito e especialista em segurança pública e direito penal, Monteiro faz questão de se declarar cristão e conservador. É contra a descriminalização das drogas no estado. “Defendo a família e nossos valores. Luto por uma escola militarizada onde os professores não sejam agredidos por alunos. E os estudantes não se formam sob a chancela do analfabetismo funcional”, afirma.

Em 2014, tentou se eleger deputado estadual, mas não obteve sucesso. Com 1% das intenções de voto, segundo a última pesquisa do Datafolha, o PM tenta agora se tornar governador. Casado e pai de um filho, ele é o nono dos 12 candidatos ao governo do Rio entrevistados por A VOZ DA SERRA. Todos foram convidados a responder às mesmas perguntas sobre o estado, Nova Friburgo e a Região Serrana.

AVS: O próximo governador assumirá o estado com um rombo nos cofres estimado em R$ 10 bilhões. Como planeja sanear as contas do estado?

André Monteiro: É preciso confrontar o verdadeiro problema do estado que não é e nunca foi a falta de recursos. O estado teve aumento de arrecadação muito significativo em 2017, como os 104% em recebimento dos royalties que foi responsável pelo encolhimento de 40% do déficit. Em um ano a nossa receita de participação especial no petróleo subiu mais de 48% e a receita tributária fechou acima do previsto, cerca de R$ 47 bilhões. O estado tem receita. O que ele não suporta mais é bancar regalias, mordomias e desperdícios. Quem promete fechar as contas aumentando imposto não sabe administrar. Gerir financeiramente é apresentar resultados positivos com os recursos que possui e fazendo a multiplicação do dinheiro fechando as torneiras do desperdício, auditando os contratos estranhos e estancando a corrupção.

O Rio de Janeiro tem a maior taxa de desemprego do Sudeste. São cerca de 1,2 milhão de pessoas procurando uma oportunidade, segundo a Pnad/IBGE. Como gerar novas vagas?

A ordem é realizar uma varredura em todas as empresas contempladas pelos benefícios fiscais, assim saberemos quais geram empregos de verdade. A renúncia fiscal é política aplicada no mundo, mas precisa produzir desenvolvimento, empregos e arrecadação. Vamos modernizar nossas polícias. Os microempresários precisam se sentir seguros em seus empreendimentos. A segurança pública fortalecida atrai investimento, aumenta o turismo e gera empregos.

Moda íntima, indústrias metal-mecânicas, o comércio, a construção civil e a agricultura são motores de Nova Friburgo. Seu futuro governo planeja algum tipo de incentivo para incrementar a economia da Região Serrana?

A volta do crescimento econômico no estado depende de uma ação conjunta de incentivo a todas as regiões produtivas. Reduzir impostos, desburocratizar a abertura e manutenção das empresas e auditar as concessões de incentivo fiscal são as primeiras diretrizes a serem tomadas. Os empresários de todos os setores precisam ser priorizados. A empregabilidade depende do cuidado que tivermos com os negócios que lutam para se manterem abertos no estado.

O estado está sob intervenção federal na segurança há seis meses. Como evitar a fuga de criminosos da capital para o interior?

Uma das maiores armas que os agentes de segurança possuem para evitar essa migração se chama blitz. Criminosos que tentam se infiltrar em outras localidades através de nossas estradas temem o obstáculo das fiscalizações, mas sabemos da deficiência de contingente para estender e intensificar essas operações. Existe outra forma rápida e participativa. A própria população do interior sabe quando alguém diferente chega no bairro. A característica de todos se conhecerem é a arma contra a instalação da bandidagem. Os moradores devem denunciar através do Disque Denúncia qualquer novo morador suspeito. A parceria sociedade-polícia funciona contra o crime.

O Hospital Municipal Raul Sertã, em Nova Friburgo, é uma referência para a região, recebe pacientes de 13 municípios, mas enfrenta dificuldades. Seu governo planeja estadualizar a unidade ou tem algum plano para melhorar o atendimento de urgência?

A saúde está um caos no país. No governo de Pezão, ele abriu mão, por incompetência administrativa, de dois grandes hospitais na capital, o Albert Schweitzer e o Rocha Faria, que rendeu ao governo uma economia de R$ 504 milhões, mas esse dinheiro não seguiu para as UPAs ou demais unidades do estado. A melhora na saúde do estado está diretamente ligada à auditoria de todas os contratos com as organizações sociais (OSs), mudança no quadro administrativo por pessoas técnicas das áreas que lhes competem e combate à corrupção. O dinheiro da saúde precisa chegar aos hospitais que se destinam.

A UPA da cidade não recebe a parte dos recursos que cabe ao governo estado há mais de três anos. A prefeitura tem mantido a unidade 24 horas com recursos próprios, junto com o governo federal. Qual o seu plano para as UPAs?  

Exatamente o que o conversamos anteriormente. As UPAs foram criadas para desafogar os hospitais com atendimentos rápidos e, hoje, até recebem internações. Com suspeita de fraudes e corrupção, elas sucumbem como as demais unidades de atendimento médico. Auditoria, combate à corrupção e fim dos cabides de emprego serão nossas ações para eficiência no atendimento e respeito aos profissionais.

E quanto ao Hospital do Câncer, cuja obras em Nova Friburgo estão paralisadas desde 2016?

Mais uma promessa para a lista das não cumpridas de Pezão. O câncer é a doença que machuca toda uma família. Pacientes acometidos de câncer merecem ter seus impostos revestidos em cuidados e o melhor atendimento médico nesse momento difícil. Reequilibrando as contas a retomada da obra, com o processo correto, será prioridade em meu governo. Ainda que tenhamos que reduzir a quantidade de leitos iniciais, precisamos oferecer esse direito aos moradores de Nova Friburgo.

Nova Friburgo conta com um campus da Uerj, o Instituto Politécnico do Rio de Janeiro (IPRJ/Uerj). Como tirar as universidades estaduais (Uerj, Uenf e Uezo) dessa crise sem precedentes?
A crise generalizada nos diversos setores do estado está atrelada à corrupção. Desvio de verba e mau uso do dinheiro público ameaçam nosso crescimento acadêmico. É hora de fechar a torneira do desperdício, montar uma equipe técnica e idônea que faça com que os recursos da educação sejam investidos em educação.

Friburgo, Teresópolis e Petrópolis são os principais destinos turísticos do estado para quem curte um friozinho. Qual seu plano para alavancar o setor turístico na região?
O turismo cresce sob duas óticas, em quaisquer localidades: segurança e incentivo. Reformar a segurança em nossas áreas turísticas e desburocratizar o processo de abertura e manutenção das empresas serão pontos a serem resolvidos para aumentar o turismo na região, não apenas no inverno. Queremos despertar nos turistas o interesse para essa região também fora das altas temporadas.

Depois da tragédia climática de 2011, Friburgo recebeu importantes obras de contenção de encostas, habitação e canalização pluvial, como a do Rio Bengalas. Outras ainda faltam ser executadas na cidade. Você pretende fazer alguma mudança na política atual de prevenção a desastres naturais na serra?

A tragédia foi o resultado da ocupação irregular do solo e a falta de infraestrutura adequada para enfrentar o problema. E, anos depois, assistimos ao crescimento desordenado de nossas encostas, ladeiras e desmatamento de área arborizada para construções clandestinas. Catástrofes podem e devem ser impedidas através da prevenção. Prevenir custa caro, mas amparar depois da tragédia custa muito mais. O dinheiro do povo precisa priorizar a melhora de vida da população.

Friburgo perdeu o escritório regional do Ibama, que tinha importante papel na fiscalização do desmatamento. A cidade conta agora com o trabalho do Inea e da prefeitura, mas ambos sofrem pressões políticas. O que seu governo fará para evitar a redução da Mata Atlântica, que cobre 45% do território friburguense, segundo o SOS Mata Atlântica?
Em julho deste ano, o próprio Inea divulgou a ampliação do monitoramento por satélite na Região Serrana. O alcance por geotecnologia foi ampliado para os municípios vizinhos como Duas Barras, Bom Jardim, São José do Vale do Rio Preto e Sumidouro. Mas ainda não é o suficiente. Desmatamento se combate com investimento em ferramentas tecnológicas, que podem surgir da parceria com as universidades, aos setores responsáveis e leis penais mais duras por descumprimento da ordem de preservação.

 

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