Donos de animais se queixam do barulho de fogos de artifício

Uso de artefatos explosivos é proibido em Nova Friburgo. Festas de fim de ano preocupam
segunda-feira, 25 de novembro de 2019
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)
A porta da cozinha quebrada por Bulk e Capitu, apavorados com os fogos (Foto de leitor)
A porta da cozinha quebrada por Bulk e Capitu, apavorados com os fogos (Foto de leitor)

Com a chegada do fim de ano, a preocupação dos apaixonados por animais volta-se para as festas que utilizam fogos de artifício, principalmente o réveillon. No último fim de semana, muitos animais foram prejudicados por conta do barulho desses artefatos. A grande festa pelo título da Copa Libertadores da América, conquistado pelo Flamengo no último sábado, 23, começou bem antes do jogo. Ao longo do dia, vários torcedores se reuniram para assistir à final. Em meio à alegria, alguns excederam a empolgação e foi possível ouvir em vários cantos da cidade estouros de fogos de artifícios, bem como artefatos explosivos que são proibidos, de acordo com a lei municipal 4.561, de 2017, que proíbe a queima de fogos de artifício e artefatos pirotécnicos que produzam poluição sonora e estampidos.

 A lei, que considera entre outras questões o impacto dessa poluição sonora na saúde da população e o risco para os animais, vigora em todo o município, sendo proibido o uso desses itens tanto em locais públicos quanto privados. O descumprimento da lei pode acarretar multa entre R$ 50 e R$ 1 mil, com cobrança em dobro em caso de reincidência. A cidade, nos últimos anos, suspendeu, inclusive, a utilização de fogos de artifício para o réveillon, mas o que se constata , principalmente em eventos e comemorações é o desrespeito à lei.

Donos de animais passaram muito sufoco no último fim de semana com os bichinhos nervosos a cada estampido. Muita gente está preocupada com a proximidade das festas de fim de ano. Muitos animais fugiram de seus lares,desorientados com o barulho dos fogos. Alguns já foram encontrados, outros ainda estão perdidos. Houve casos de animais atropelados, assim como relatos de animais que tiveram ataque de pânico e passaram mal.

Como foi o caso de Valente, que pertence aos pais da jornalista Tatiane Tavares, um vira-lata muito mansinho e simpático. Ele não aguentou o impacto das explosões e, tomado pelo pânico, pulou para a casa do vizinho e de lá fugiu para a rua, no bairro São Geraldo. “Rodamos tudo, divulgamos pedindo ajuda a vizinhos e demais moradores de São Geraldo. Depois de quase dois dias, ele foi encontrado perto de um supermercado, no bairro”, contou. 

Apesar de morar em apartamento e não correr o risco de fuga, os cachorros da psicóloga Ágatha Abrahão – Bulk (um bulldog francês) e a Capitu (vira-lata) – ficaram tão agitados no último sábado que quebraram a porta da cozinha e arrancaram o interfone, tentando fugir. “O tempo inteiro eles ficam tremendo, com o coraçãozinho acelerado, vomitam. Eu não posso sair de casa e deixá-los sozinhos”, diz Ágatha. 

A também psicóloga Clara Rodrigues, apaixonada por felinos, possui dez gatos. Já sabendo que era inevitável os barulhos dos fogos, ela manteve os animais em um quarto, meia hora antes do jogo, e aumentou o volume da TV para tentar abafar os estouros. “Não adiantou. Durante a queima de fogos eles ficaram muito assustados, se esconderam em baixo da cama, do lençol, completamente desnorteados. Tenho uma gata (Fiona) que tem problemas de saúde, o que me deixa ainda mais preocupada. A queima de fogos é prejudicial não só para os animais, mas também para autistas, enfermos. Temos muitos jeitos de realizar comemorações que não prejudicam a ninguém”, reclamou.

Animais desaparecidos

A protetora animal Luciana Silva foi acionada diversas vezes para ajudar a encontrar animais desaparecidos por conta do foguetório. Torcedora do Flamengo, não escondeu sua satisfação com os títulos, mas puxou a orelha dos torcedores que excederam as comemorações. Em suas redes sociais, a protetora lembrou que autistas, crianças e idosos sofrem da mesma forma.

 “Hoje (domingo), animais foram atropelados e, se não foram mortos, estão entre a vida e a morte em alguma clínica ou agonizando em algum canto a espera de um socorro que não irá chegar. Os animais ficam enlouquecidos com o barulho dos fogos. Pulam muros e janelas, se enforcam se estiverem em correntes. Aconteceu isso hoje (domingo) e ontem (sábado). Qual o prazer na explosão, sabendo que animais tem a audição super sensível, bebês recém-nascidos e idosos também? Crianças e adultos autistas sofrem demais com as explosões. Está mais do que na hora de parar! Minha avó ficou surda antes de falecer devido à um explosivo que estourou no telhado da sua casa”, postou indignada.

Momentos antes, a protetora postou imagens da cadelinha Flor, que fugiu de casa devido ao barulho dos rojões. Depois de um tempo o animal foi encontrado. Apesar do final feliz, Luciana fez um novo apelo para os torcedores. “Vale lembrar que Flor, assim como tantos outros, fugiu devido aos fogos de ontem (sábado). A festa é linda, a comemoração deve ter, mas fogos com estampidos ninguém merece. Vamos nos preocupar mais com o próximo, com os animais. Sou flamenguista, amo meu time, mas não vejo necessidade nenhuma de fogos tão barulhentos. Podemos fazer uma linda festa. Mais amor, por favor, e menos barulho desnecessário”, desejou.

 “É um suplício”

Reco, é um border collie (foto), uma das raças de cachorro mais inteligentes do mundo, segundo especialistas. Reco senta, deita, dá a patinha, rola e sabe até abrir portas. A única coisa que ele ainda não sabe fazer é conseguir se acalmar em meio aos estampidos ensurdecedores dos rojões. “Assim como a maior parte dos cachorros, Reco detesta o barulho dos fogos de artifício. Todo dia de jogo importante é um suplício para ele, porque quase sempre soltam fogos e ele fica muito agitado com o barulho, correndo sem parar de um lado para o outro e latindo incessantemente, até quase perder a voz. Já houve ocasiões em que ele vomitou de tanto latir. Por isso mesmo, em dias que eu sei que farão uso de fogos de artifício, evito sair de casa. Final de ano é uma época em que não posso viajar, a não ser que tenha uma pessoa de confiança com quem deixar o Reco ou que o coloque em um hotel para cachorros. Tudo isso poderia ser evitado com um pouco mais de solidariedade por parte da população e com um pouco mais de consciência acerca dos direitos dos animais. Certamente as pessoas possuem o direito - e até mesmo o dever - de celebrar. Mas podem fazer isso de forma menos sonoras, que não agridam e prejudiquem os animais”, pediu a advogada Lia Rodrigues.

Preocupação com animais silvestres

De acordo com o veterinário Antônio Micai, além de cães e gatos, há de se ter, também, a preocupação com animais silvestres, por terem uma audição sensível a barulhos. “É de conhecimento de todos que os animais sofrem bastante por conta dessas explosões, bem como o brilho desses fogos. Os ruídos e  estouros, causam pânico. Imaginem esses animais, na mata, à noite, querendo fugir. Há casos de animais com problemas neurológicos ou cardíacos e o estresse pode causar vômito, falta de ar, convulsões e arritmia cardíaca. Além dos animais, também tem crianças pequenas, bebês, idosos, que sofrem bastante com esse som ensurdecedor. É importante deixar livre o acesso em casa, apartamento, locais em que o animal possa se esconder. Tentar abafar o som com cobertores, portas e janelas também funciona e, se possível, nunca deixar o animal de estimação sozinho”, sugere o veterinário. 

O que diz a prefeitura

A Prefeitura de Nova Friburgo informou em nota que os fiscais realizam visitas periódicas a estabelecimentos comerciais para identificar se há venda de artefatos e, assim, tomar as medidas cabíveis para coibir a prática. Ainda segundo a nota, a prefeitura encontra dificuldade para aplicar multas porque, para tal, é necessário o flagrante. Sendo assim, solicita a quem flagrar a prática que faça a denúncia na Secretaria de Posturas, que pode ser feita através do e-mail coordenadoriadeposturas@hotmail.com ou através do setor de protocolo, aberto de segunda a sexta, das 9h às 17h, na prefeitura.

*É proibido publicar este material sem autorização da direção do jornal A VOZ DA SERRA

 

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