Depoimentos de quem fez a bariátrica

Cirurgião Sávio Picanço explica que gastroplastia não se trata de um procedimento meramente estético
sábado, 15 de setembro de 2018
por Paula Valviesse (paula@avozdaserra.com.br) e Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
Marcello Político Penha antes e depois (Arquivo pessoal)
Marcello Político Penha antes e depois (Arquivo pessoal)

Aos 32 anos, a ex-modelo plus size Angélica Silva precisou tomar uma decisão: fazer ou não a cirurgia bariátrica. A intervenção cirúrgica era necessária para resolver problemas causados pela obesidade. Com as taxas de colesterol e triglicerídeos altas e diagnosticada com princípio de trombose, ela tinha que emagrecer para fazer uma cirurgia de safena. Optou pela operação.

Hoje, aos 34, ela fala de sua satisfação: “Não tenho problema nenhum de saúde. A cirurgia não me fez careca, nem banguela, nem com cara de doente. E a sensação de vestir um manequim 38/40 é indescritível, a qualidade de vida, a disposição no dia a dia é maravilhosa”.

“Sou uma pessoa bem resolvida, com autoestima elevada, mas alguma coisa estava prejudicando a minha saúde. Quando fui diagnosticada com princípio de trombose, o angiologista me informou que eu precisava retirar minhas safenas. Só que, para isso eu precisava emagrecer muito. Daí, fui pesquisar a cirurgia bariátrica e resolvi fazer, mesmo com as pessoas dizendo que era perigosa. Mas, eu poderia morrer de trombose”, relatou.

A preparação é minuciosa: “Procurei um médico, fiz vários exames, consultas com psicólogo, endócrino, nutricionista. Operei no dia 7 de junho de 2016. Meu plano de saúde demorou sete meses para liberar, mas mantive minha decisão. Passados dois anos e dois meses da cirurgia - técnica bypass - emagreci 50 quilos. Fiz a retirada necessária das safenas e, há dois meses passei pela minha primeira cirurgia reparadora (abdominoplastia). Estou muito feliz com o resultado e digo para quem tem o sonho de operar: faça sem medo, sem dar ouvidos a pessoas negativas”.

Mudou a qualidade de vida, a silhueta, mas Angélica conta que não precisou deixar de comer o que gosta, após a cirurgia: “Como de tudo, levo uma vida normal. Se voltasse no tempo faria tudo de novo, sem pensar duas vezes. A chance de morrer por causa da obesidade é muito maior do que pela cirurgia”, concluiu. (Paula Valviesse)

Quando a saúde é o principal motivo

Marcello Político Penha, de 52 anos, fez a cirurgia há pouco mais de dois anos. Emagreceu 51 quilos e destaca a importância de uma equipe bem preparada para uma boa recuperação: “É fundamental avaliar a equipe, ão só o médico, todos os envolvidos no pré e pós-operatório, porque é com eles que você precisará contar para uma recuperação plena. O auxílio psicológico e a mudança na alimentação são tão importantes quanto a cirurgia em si”.

Também no caso de Marcello foi a saúde que motivou a cirurgia. Mas a perda de peso é também motivadora, o ganho estético é um grande diferencial: “Minha única taxa normal era o açúcar, mas independentemente disso o médico falou que eu poderia acordar diabético de uma hora para outra porque o meu pâncreas estava funcionando sob extrema pressão por conta do meu peso. Agora, todas as taxas melhoraram, minha disposição mudou, até o humor e autoestima melhoraram. E poder entrar numa loja e comprar a roupa que eu quero e não só a que cabe é outro grande motivador”, afirma.

E foram as informações do médico que o incentivaram a passar pelo procedimento: “Era a minha esposa que estava disposta a operar, mas marcou a consulta para nós dois. A atenção médica, o esclarecimento a respeito do procedimento e, claro, os benefícios me convenceram”.

Nos últimos dois meses a rotina corrida de trabalho influenciou no ganho de peso, mas a determinação é grande e ele pretende em breve voltar ao resultado ideal: “Quando eu fiz a cirurgia estava com 120 quilos, isso com 1,64 de altura. Perdi 51 e consegui manter esse peso por dois anos, mas nos últimos meses, por conta da rotina, acabei relaxando e engordei 8, especialmente por ter aberto mão dos exercícios físicos. Agora estou começando a fechar a boca. Em novembro, quando passar esse período tumultuado, volto aos exercícios”.

A gastroplastia - mais conhecida como cirurgia bariátrica, ou cirurgia da obesidade, ou ainda cirurgia de redução do estômago -, é a plástica do estômago (gastro = estômago, plastia = plástica) que tem como objetivo reduzir o peso de pessoas com o IMC (Índice de Massa Corporal) muito elevado.

As campanhas contra o excesso de peso alertam: a obesidade pode trazer agravamentos médicos como hipertensão, diabetes, entre outras consequências; e que o tratamento é considerado clínico, ou seja, é necessário que ocorra a reeducação do paciente, antes de se recorrer à gastroplastia.

Para pacientes cujo peso limita sua mobilidade e atividade diária, a cirurgia bariátrica muda, para melhor,  a vida das pessoas. Entender o que é cirurgia bariátrica, contar com apoio pré-operatório completo e cirurgiões qualificados e experientes, bem como acompanhamento de especialistas no pós-operatório é fundamental para que todo o processo tenha êxito.

Para informar e esclarecer nossos leitores sobre a questão, entrevistamos o médico-cirurgião Sávio Picanço Moreira, especialista em cirurgia do aparelho digestivo, coloproctologia e bariátrica, com centenas de intervenções para redução do estômago desde 2002, em Teresópolis, e há 12 anos em Nova Friburgo, onde está radicado desde 2006. Confira:

"Não é um procedimento meramente estético", diz cirurgião Sávio Picanço

“A cirurgia bariátrica não tem por objetivo fazer uma pessoa emagrecer para ficar bonita. É para tratar uma doença e se destina a tornar o paciente uma pessoa saudável. É de saúde que estamos falando. Se, com o tratamento, ela ficar bonita, com uma aparência que lhe agrada, ótimo. Terá sido consequência, resultado de todo o procedimento que envolve a operação. Mas, ratifico, o tratamento da obesidade nunca teve como objetivo a estética. Obesidade é doença”, reitera o cirurgião, de forma enfática.

Ele faz questão de listar as doenças provocadas pela obesidade, como o diabetes, que causa sérias consequências, em qualquer idade e de pesos variados, assim como a hipertensão arterial, problemas respiratórios, entre outros.

“Você não precisa ter peso excessivo para contrair doenças. E as pessoas que se submetem à redução de estômago buscam uma vida saudável. De vez em quando atendo uma pessoa que, por desinformação, pretende resolver seu problema de peso, afinar a silhueta, com a cirurgia, visando apenas a estética. Então, tenho que explicar o que é a cirurgia bariátrica, expor suas fases e implicações, desde o pré-operatório, passando pela intervenção, o pós, e, não menos importante, o acompanhamento médico ao longo dos anos”, explicou, acrescentando que 80% dos pacientes é composto por mulheres.   

Sempre insistindo que o tratamento da obesidade não tem nada a ver com estética. “Naturalmente, quem passa por essa intervenção tem sua imagem alterada, e geralmente, para melhor. Até porque a autoestima, os cuidados com a aparência, são consequências, afinal, o corpo passou por um tratamento de emagrecimento. Tudo tende a melhorar, e o paciente, seja qual for o tratamento a que tenha sido submetido, se torna uma pessoa mais feliz. Esse processo se aplica a qualquer pessoa que supere um problema de saúde. Esse conjunto de fatores transparece, vem à tona”, analisou.    

Como encarar a obesidade

Sávio explica que, na obesidade, o tecido adiposo provoca no organismo uma atividade inflamatória constante, 24 horas por dia. “Grosseiramente falando, esse tecido produz toxinas que circulam pelo corpo. Com o tempo, essas toxinas vão causando os problemas associados à obesidade que chamamos de comorbidade. Aí podemos nos deparar com o diabetes tipo 2, hipertensão, esteatose hepática (gordura que se acumula no fígado, que pode evoluir para uma fibrose e depois, cirrose), problemas nas articulações, mais chances de câncer no aparelho digestivo, de mama, de útero. Então, com o tempo, o obeso contrai doenças associadas. Obesidade mata. Nao é só uma questão de peso, mas de todo um processo destrutivo que ela causa. As doenças vão surgindo”, detalhou.   

Nos últimos 10 anos, segundo ele, aumentou expressivamente o índice de obesidade, principalmente em adolescentes. A princípio, a cirurgia é indicada para pessoas com idades entre 18 e 65 anos. O que não impede que pessoas mais jovens ou mais velhas recebam o tratamento, embora a maioria dos operados tenham entre 20 a 40 anos. Também já realizou operações em jovens de 15, 16 anos, e idosos com 70 anos: “a obesidade não escolhe idade”. Em outra ponta, relata, por exemplo, o atendimento de um paciente na faixa dos 30 anos, com índice de massa corporal de 40 (obesidade mórbida), mas que pode apresentar, em determinado momento, um colesterol bom, glicose boa.    

“Essa pessoa traz exames com bons resultados (pontuais, vale destacar), mas se diz insatisfeita com o peso, quer melhorar a silhueta, seu objetivo é estético. Ela quer resolver seu problema com a redução de estômago. Só que esse procedimento não pode ser feito baseado apenas em resultados laboratoriais. Antes de mais nada, é preciso que ela entenda o problema de saúde que ela tem, em toda a sua extensão, e se preparar, física e psicologicamente, para o pré e pós-cirurgia. Tem os impactos dessa intervenção em sua vida, as mudanças que virão. Então, qual o tratamento mais indicado para o seu caso? É uma questão clínica ou cirúrgica? O que é mais adequado à sua realidade, à sua natureza, ao seu estilo de vida? São vários os aspectos a serem investigados, por uma equipe multidisciplinar. E dependendo da minha avaliação final, posso recusar”, finalizou o especialista, alertando que “o mundo está gordo e diabético. Não existe obesidade saudável!”.    

Índice de Massa Corporal

O índice de massa corporal, o IMC, é uma técnica utilizada para verificar o estado nutricional e observar se a pessoa está dentro dos padrões de normalidade com relação ao seu peso e estatura.

Esta técnica é medida por meio da fórmula: IMC = Peso / Altura.

Neste cálculo leva-se em conta o peso e a altura do indivíduo, dividindo o peso pela altura elevada ao quadrado. Este cálculo é uma forma simples e de grande importância para detectar se a pessoa apresenta um grau de desnutrição, se está no padrão de normalidade, sobrepeso, obesidade ou obesidade mórbida. Após a realização do cálculo, deve-se observar o resultado de acordo com os seguintes valores:

  • Abaixo de 18,5 = desnutrição

  • Entre 18,5 e 24,5 = peso normal

  • Entre 25,0 e 29,9 = sobrepeso

  • Entre 30,0 e 39,9 = Obesidade (dividido entre graus 1 e 2)

  • Acima de 40,0 = Obesidade Mórbida

Deve-se considerar que apenas este cálculo não é suficiente para avaliar corretamente o estado nutricional. É necessário avaliar a massa muscular, hidratação, atividade física, entre outros dados. Uma avaliação completa, bem como as orientações necessárias, só poderão ser realizadas por especialistas.

 

 

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