Crônica de uma infância efêmera

Criança levada ouve o pai contar como foram seus duros tempos de menino
segunda-feira, 14 de outubro de 2019
por Alan Andrade (alan@avozdaserra.com.br)
Crônica de uma infância efêmera

Quando a (editora) Ana Borges me pediu uma crônica sobre o Dia das Crianças, não conseguia me lembrar de algum momento marcante na minha infância relacionada a esta data, já que eu fui uma criança tão intensa – leia-se peste, que todos os minutos livres de meus dias eram aproveitados à exaustão, de forma que todo dia era dia de ser criança. E como meus pais não tinham grana para comprar para seus filhos um Atari de última geração, garantindo ao comércio a importância de sua data, acabava sendo um dia comum.

Resolvi então ligar para meu pai, para ver se ele se lembrava de algum Dia das Crianças que tivesse sido marcante para ele. Ely, este menino a quem orgulhosamente chamo de pai, começou falando sobre como foi sua infância, no interior do interior do Brasil, dividida com seus primos, únicos amigos, vizinhos e cúmplices de suas aventuras. Como qualquer criança, brincavam de pique-pega e futebol no quintal de seu tio, com qualquer objeto que rolasse e desse a breve impressão de que aquilo poderia ser uma bola. 

O que mais gostava, no entanto, era de brincar em seu carrinho de pau, feito pelo meu avô Odílio com duas cavas em uma madeira, colocada sobre dois carretéis de linha que minha avó Irene usava para fazer suas costuras. Também usava um aro de bicicleta e um pedaço de ferro com o qual fazia girar as rodas do carrinho enquanto corria atrás de seu engenhoso veículo. O que achei mais curioso, na verdade, foi o fato de ele passar carvão e querosene nos carretéis para reproduzir o som de um carro. “Aí fazia um ruído bonito”, observou meu pai. Neste momento, perguntei a ele novamente sobre o Dia das Crianças, se ele se lembrava de uma festa específica. “Calma, vou chegar lá”. 

Todos os sábados, o menino Ely e seus primos iam tomar banho de açude. Claro, aqueles que tinham o privilégio de ter um short, vestiam-se para nadar. Os demais, entre eles meu pai, iam nadar como vieram ao mundo, livres como a natureza. Aproveitavam a água para tomar banho lá mesmo. Como sabonete era coisa de gente chique, lavavam-se com um sabão vermelho ou então com um sabão de soda feito pela minha saudosa avó.

Aproveitando o espaço que ele deu em sua fala causado pela emoção ao se lembrar de minha avó, voltei a perguntar sobre o tal Dia das Crianças marcante. “Calma, eu chego lá”.

Com alegria, recordou dos momentos em que acordava no início da madrugada para ajudar meu avô no feitio de rapadura. O menino Ely ajudava a colocar a cana-de-açúcar na moenda, tocava a junta de bois que davam voltas e voltas em torno do engenho para moer a cana e, como recompensa, raspava a sobra de rapadura no tacho. 

Quando ia para a pequena escola onde estudava, levava seu material didático dentro de uma sacola de plástico usada anteriormente para embalar açúcar ou arroz. E em épocas tempestuosas, lembra ele, chovia mais dentro de casa do que fora. Minha avó ficava com o guarda-chuva aberto dentro de casa, aninhando seus rebentos sob suas asas, para que as gotas imensas não afogassem seus sonhos de criança.

Mais uma vez a fala do meu pai foi interrompida pela emoção, e aproveitei para perguntar sobre o tal Dia das Crianças do qual ele havia me prometido relembrar. “Nós nem imaginávamos do que se tratava Dia das Crianças. Tudo o que a gente tinha era o Natal”, quando meu avô comprava de presente para cada filho uma garrafinha de guaraná. Como eles não tinham geladeira – e o próprio gelo era para eles era um mistério da natureza –, eles bebiam seus presentes quentes, mesmo. Uma sensação de prazer que não conseguiu expressar. Talvez seja essa a sua recordação mais marcante de quando ainda era criança.

Em 1970, com onze anos, mudou-se para a cidade. Com essa mudança, acabava sua infância. As atribuições de uma vida adulta precoce o impediu de aproveitar a glória de ser criança em sua plenitude. Mas toda vez que voltava ao lugar onde nasceu, quando dava o momento de voltar para a vida adulta da cidade, ia embora olhando para trás, dando adeus, com seus olhos cheios de lágrimas, com pena de deixar para trás aquele lugar mágico, onde por um breve período pôde desfrutar das alegrias de ser menino. 

 

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