Cenário político polarizado mas indefinido deixa eleitor desconfiado

Professoras Geni Nader Vasconcelos e Jean Beatriz Wermelinger analisam quadro eleitoral para o AVS
sábado, 22 de setembro de 2018
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
Cenário político polarizado mas indefinido deixa eleitor desconfiado

Faz 20 anos não havia um contingente tão grande de eleitores confusos e indecisos, faltando apenas 15 dias para votar. O cenário continua indefinido e nenhum analista político ou instituto de pesquisa arrisca dizer quem estará no 2º turno, resultado que, ao que parece, só será conhecido no dia 7 de outubro.

É tema recorrente no noticiário o fato de 53% do eleitorado brasileiro ser feminino, o que faz da mulher o fiel da balança. É seu o poder de escolher o próximo presidente. No entanto….

O Brasil é o último país da América do Sul em presença feminina na Câmara dos Deputados. Elas ocupam apenas 54 (10,5%) das 513 cadeiras da Casa. O percentual relega o país à 152ª posição, entre 190 nações pesquisadas, no ranking mundial da participação das mulheres na política. Os dados foram divulgados na pesquisa “Estatísticas de gênero – Indicadores sociais das mulheres no Brasil”, pelo IBGE.

No mundo, as mulheres ocupam, em média, 23,6% dos assentos nas câmaras baixas ou parlamentos unicamerais. Pasmem, o ranking é liderado por Ruanda (61,3%) e traz países como Cuba (48,9%), Suécia (43,6%) e Argentina (38,1%) bem à frente do Brasil.

Diante desse quadro, convidamos Geni Nader Vasconcelos – coordenadora pedagógica do Colégio Nossa Senhora das Dores, e Jean Beatriz Wermelinger – diretora executiva do Colégio Nossa Senhora das Dores, ambas membros do Grupo de Estudos Memória, Identidade e Espaço, de Nova Friburgo, para refletir sobre o momento atual brasileiro.

A VOZ DA SERRA: Indecisos, descontentes, desconfiados são os adjetivos mais recorrentes nas análises dos especialistas em pesquisas eleitorais.  Como avaliam a atual situação?

Geni Nader e Jean Beatriz: É mesmo um tempo marcado pela desconfiança ou mesmo pela descrença nas instituições. Perde força a esperança em soluções coletivas, fazendo crescer a busca de saídas individuais para situações socialmente produzidas. Se a violência cresce, protegemo-nos com muros, redobramos a vigilância e aí o problema já não é tão nosso.

 

Em que o eleitor deveria se basear ao escolher seus candidatos?

Precisamos, apesar das dificuldades experimentadas, abraçar  o compromisso com o mundo em que vivemos, com a nossa Casa Comum. O papel da política nesse processo não pode ser subestimado. Neste momento em que se avizinham as eleições, é necessário indagarmos, como aprendemos com  Paulo Freire,  as crenças, os valores e as práticas que sustentam as propostas apresentadas pelos diferentes grupos. Essa é uma tarefa imprescindível para fazermos opções que possibilitem transformações significativas para a constituição de uma sociedade justa e igualitária. 

 

Quais as consequências da opção pelo individualismo em detrimento do coletivismo?

Esse encaminhamento individualizado das questões com as quais nos defrontamos, cotidianamente, acaba por manter inalteráveis as causas que as geram, fazendo crescer os problemas que nos desafiam e inquietam. Problemas sociais só podem ser socialmente compreendidos e equacionados. Isso exige o exercício da política de forma consciente e comprometida com o bem comum. Uma prática política dessa ordem oportuniza ações que fazem frente ao confronto de interesses, possibilitando a vida compartilhada entre os diferentes.

 

Considerando que o eleitorado feminino representa 53% do total de eleitores no Brasil, por que essa representação está longe de corresponder às vagas nos parlamentos?  

A presença maior das mulheres nos espaços decisórios da vida política é parte de um  movimento mais amplo, que entende a representação das minorias como condição fundamental da vivência plena para a democracia. Reconhecer essa exigência e propor ações concretas para efetivá-la é, pois, um dos desafios com os quais nos confrontamos no avanço do processo democrático em nossa sociedade.

 

Por que a violência contra a mulher, assassinatos, como o da vereadora Marielle Franco, entre outras, rotineiramente, atrai pouco as mulheres para as causas femininas, para a prática na política?

Apesar dos avanços experimentados nas últimas décadas, oriundos das lutas e das conquistas dos movimentos sociais, a representação feminina na política e em outros segmentos continua muito tímida. Ainda que se discuta a necessidade da presença das mulheres, os espaços mais institucionalizados continuam sendo um reduto masculino. É de fundamental importância que, cada vez mais, as mulheres se reconheçam como sujeitos capazes de ação em todos os campos, em todas as causas. Esse reconhecimento implica uma ruptura com o modo naturalizado de entendermos o papel da mulher, reduzido à maternidade e ao cuidado da família. Tal concepção nega às mulheres, ainda hoje, uma participação igualitária na vida social.

 

Pelos resultados obtidos, a lei de cotas não tem alterado em nada a representação feminina nas casas legislativas. O que pensam sobre isso?  

A lei de cotas, que assegura a participação das mulheres nas disputas eleitorais, constitui uma estratégia que objetiva reduzir a desigualdade entre homens e mulheres no pleito político.  Sem dúvida, um passo importante, mas insuficiente. A manutenção da cultura machista, nas diversas instâncias da vida social, inclusive nos partidos políticos e em outras esferas do poder, continua se fazendo um obstáculo para avanços mais significativos nesse processo. 

 

O noticiário, de modo geral, tem revelado um expressivo contingente de pessoas que se dizem pessimistas e descrentes em relação ao futuro. Como se livrar desse estado de espírito?  

Devemos ampliar a discussão sobre a política na contemporaneidade, pautar  questões que exigem debates. Face a tantos desafios que se colocam na sociedade globalizada, a falta de projetos coletivos, de utopias têm se destacado e cobrada a atenção daqueles que se preocupam com as consequências desse fato. Pensadores como Bauman (Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês) instigam-nos a pensar como a descrença no futuro provoca-nos a mergulhar no passado, esvaziando-o de suas mazelas e buscando nele um refúgio seguro. As intensas mudanças que experimentamos e a precariedade das respostas formuladas para enfrentá-las não devem, todavia, nos desestimular na busca de alternativas de solução para os problemas enfrentados. Essa busca ajuda a melhorar o nosso estado de espírito.

 

De todos os caminhos que temos, neste momento, qual a melhor escolha para transformar a sociedade em que vivemos?   

    Não acreditamos em soluções mágicas e imediatas para a transformação que sonhamos. Todavia, seguimos firmes na crença de que nenhuma transformação social significativa acontecerá sem que se priorize, efetivamente, a educação em uma perspectiva humanística, combatendo as opressões e as dominações que tanto mal têm feito aos homens.

 

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