Cemitério dos Americanos

Por Carlos Emerson Junior
sexta-feira, 07 de outubro de 2011
por Jornal A Voz da Serra

— Por favor, bom dia! Será que algum de vocês sabe informar como eu chego no Cemitério dos Americanos?

Estava em Americana, no estado de São Paulo, voltando para o Rio de Janeiro, após uma viagem até Porto Alegre, com mulher e filhas pequenas. Animado, resolvi conhecer as origens da família e visitar o tal cemitério, onde existe um monumento aos imigrantes norte-americanos que vieram para o Brasil em 1865 e 1868, fugindo da Guerra de Secessão que acabou com o sul dos Estados Unidos.

— É melhor você se informar nos correios. Afinal naquela região tem gente morando e eles recebem cartas, não é ?

— Claro, sem dúvida. E lá fui procurar uma agência.

Pois é, um carteiro me ensinou parte do caminho: o cemitério ficava na zona rural, na direção de Santa Bárbara d’Oeste. De lá era só me informar que o caminho não era difícil.

— Mas só tem cana!

Foi o que todos falamos nesse pequeno lugarejo, cujo nome não recordo. Um canavial enorme, a perder de vista, um espanto para quatro cariocas pouco acostumados com o campo. Nunca tinha visto um de longe quanto mais assim, bem do lado da janela do carro.

— O Cemitério dos Americanos? O melhor caminho daqui é por dentro do canavial.

— Pelo canavial? Mas como que eu vou…

Bom, um simpático senhor na porta de uma birosca acabou me convencendo de que eu estava muito perto e, melhor ainda, era muito fácil: bastava contar as entradas à esquerda e à direita das plantações de cana-de-açúcar que não tinha como errar. E, sem pensar duas vezes, lá fomos nós em direção ao desconhecido!

Alguém aqui já dirigiu dentro de um canavial ? É uma loucura. O piso de terra até é bem razoável por causa do trânsito de caminhões e tratores, mas você só consegue ver para a frente. Os enormes pés de cana-de-açúcar criam uma barreira impenetrável, dando a nítida impressão de que você está em um túnel sem o teto.

Seguimos. Andamos. Esquerda, em frente, direita e não chegávamos a lugar algum. Só cana, cana e mais cana. De repente, pendurada em um poste de madeira surge uma placa de ônibus, bem velhinha. Opa! Se tem ônibus tem gente. Estamos perto da civilização. E estávamos. Logo em frente vimos o vilarejo de onde saímos, o ponto de partida da aventura.

— Ai, ai, ai, estamos andando em círculos! Onde nós erramos?

Voltei à birosca, onde o simpático senhor, com ar superior me informou:

— Ah, mas você não pode dobrar na primeira à esquerda. Vá em linha reta e siga as instruções para não se perder.

Partimos para a segunda tentativa, sempre em frente, como recomendado. Cada vez mais as plantações aumentavam e o tempo fechava. Nuvens carregadas se aproximavam pelo sul e alguns trovões se ouviam à distância, quando o distinto aqui cometeu a gracinha fatal:

— Olhem só o tempo! Será que vem algum tornado por aí, igual ao do filme Twister ?

O tempo fechou completamente, só que dentro do carro, uma senhora tempestade:

— Pai, volta, se vier um tornado nós estamos perdidos!

— Júnior, vamos voltar logo. Aliás, perdidos nós já estamos!

— Eu quero voltar, quero minha casa...

— Pessoal, no Brasil não existe tornado. É só a paisagem é que é parecida! Vamos lá, já estamos quase chegando!

— Que estamos chegando que nada! Olha só a placa do ponto de ônibus de novo aí na frente. Trata de voltar logo para a cidade antes que chova ou que a gente nunca mais saia desse canavial.

Era verdade. A maldita placa de ônibus estava ao lado do carro. Tínhamos voltado ao ponto de partida. Ou eu era incapaz de entender instruções e guiar dentro de um canavial ou o simpático senhor tinha ódio de americanos e tentava me fazer andar em círculos para o resto da vida.

Desapontadíssimo voltei, claro. Ficamos tão chateados que fomos direto para Campinas, onde ainda fui obrigado a passar em um shopping center para tomar um banho de civilização. A tentativa de conhecer as origens da família virou motivo para boas gargalhadas e acabou rendendo esta crônica.

O Cemitério dos Americanos ou Cemitério do Campo existe sim: fica no meio do caminho entre Santa Bárbara d’Oeste e Americana e é preservado pelos descendentes dos confederados que moram naquela região. Um simples telefonema para qualquer um deles teria evitado esse mico!

Um dia eu aprendo!

(*) - carlosemersonjr@gmail.com

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