“A capoeira é infinita”, define o Mestrando Gambá

Utilizada na música, na dança, no esporte, a capoeira é uma manifestação cultural com diversas formas
sábado, 03 de agosto de 2019
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)
(Fotos: Henrique Pinheiro)
(Fotos: Henrique Pinheiro)

Descalce os pés, agache, coloque o peso do seu corpo sobre as panturrilhas, são poucos segundos. Aperte a mão do seu colega, gire em torno de si, dê uma cambalhota para trás, um mortal, uma estrela, e não pare de gingar. Venha ao som do berimbau, do atabaque, do pandeiro. Ouças as vozes uníssonas invocarem um cântico. Abaixe, dê um chute giratório, não pare de gingar, não encoste no seu amigo, mantenha o sorriso no rosto, você está em uma roda de capoeira. Venha manjar dos paranauês junto a gente no Caderno Z.

Genuinamente brasileira, a capoeira pode ser muita coisa. Assim define o Luciano Gomes de Almeida, ou como é conhecido, Gambá, ainda fazendo mestrado. Todo capoeirista tem seu apelido. E o de Luciano não é pelo cheiro, garante. “O apelido veio quando eu era criança, depois de pintar o cabelo de loiro, que ficou igual a um pelo de gambá e daí veio a brincadeira e ficou até hoje”.

“É uma luta, é uma dança, é um esporte, é uma manifestação cultural, uma expressão corporal, ela é música. É muito amplo. Eu costumo dizer que ela é infinita. Pode-se explorar a capoeira historicamente, artesanalmente, através de instrumentos musicais. Hoje, em competições de MMA existem muitos capoeiristas”, enumera Gambá.

Há 23 anos praticando capoeira, Gambá realiza diversos projetos sociais tanto em comunidades de Nova Friburgo quanto fora da cidade. “Eu comecei a praticar capoeira em 1996, quando tinha 13 anos, na antiga Fábrica de Rendas Arp. São mais de 20 anos da minha vida dedicados à essa arte. E é uma atividade que todos os públicos podem fazer, não tem idade. Tenho alunos de 3, 4 anos e também tenho de 60, 70 anos que iniciam na capoeira. Cada um com o seu potencial, com a sua dificuldade e facilidade de aprendizado. Temos um trabalho social com crianças em alguns bairros da cidade e em academias, não só em Friburgo, mas em cidades vizinhas como Cordeiro”.

A satisfação de ensinar transparece no resultado obtido. Gambá explica que a evolução de uma pessoa que adiciona a capoeira à sua vida, é constante e rápida. Os resultados impactam diretamente na vida social, além do aspecto físico. 

“A capoeira, por ser infinita, se atualiza diariamente. Tem sempre um movimento diferente, um aprendizado. Tinha um garoto que não conseguia fazer nada, nem levantar a perna direito, tinha um desequilíbrio muito grande. Um ano depois o garoto já estava fazendo todos os movimentos, jogando a perna lá no alto. Era tímido e passou a socializar mais. Eu mesmo sou tímido e a capoeira me ajudou para dar essa entrevista. É uma atividade que auxilia as pessoas que têm dificuldade de interagir”.

Artesanato

Gambá, além de professor e mestrando, também costuma fazer instrumentos bem conhecidos do mundo da capoeira. É um artesão, que retira da própria natureza o material necessário para realizar o seu trabalho. Em casa ele planta abóbora cabaça e muda de capim rosário, popularmente conhecida como “Lágrimas de Nossa Senhora”. A abóbora serve para fazer berimbau e as lágrimas de nossa senhora para fazer o caxixi (chocalho). Em termos musicais, a substituição não se resume apenas a uma questão cultural ou econômica, já que os instrumentos musicais têm uma personalidade ou um timbre característico, e basicamente devido ao material de que são compostos. Mudar a base de um instrumento feito a partir da cabaça não necessariamente seria uma boa opção, já que os instrumentos artificiais quase sempre tem uma sonoridade inferior aos feitos com materiais naturais.

“Eu trabalho com a restauração dos instrumentos como o atabaque, que é aquele tambor que a gente utiliza na roda, restauração de pandeiro, fabrico berimbau, reco-reco, agogô. Isso virou um lazer e hoje em dia me auxilia na minha renda porque eu vendo para quem se interessar, inclusive pela internet. O pessoal até brinca dizendo que eu sou um gambá-artesão. Tenho até uma página na internet com esse nome”, contou o capoeirista.

 Graduação

A graduação na capoeira pode ser feita de várias formas. “O meu grupo é o grupo de corda, mas existem grupos de cordel e de cordão, além do pessoal da Capoeira Angola que não usam a graduação, eles usam umas calças que as pessoas chamam de abadá ou de uniforme, além das blusas do seu grupo. Anualmente a pessoa avança na graduação. Depois de um tempo, ela se torna professora, três anos depois contra-mestre ou mestrando, e após quatro anos, mestre. Eu ainda não sei quanto falta para me tornar mestre. A palavra “mestre” é muito pesada, tem que ter muita sabedoria”, riu.

Estágios da graduação da capoeira

A Confederação Brasileira de Capoeira (CBC) é um dos principais sistemas que organizam e unificam a graduação da capoeira. A graduação adotada pela CBC é feito por cordas seguindo as cores da bandeira nacional. Veja como funciona:

Estágios
1º - Cordão verde (aluno) permanência 1 ano;
2º - Cordão amarelo (aluno) 1 ano;
3º - Cordão azul (aluno) 1 ano;
4º - Cordão verde-amarelo (aluno) 1 ano;
5º - Cordão verde-azul (aluno) 1 ano;
6º - Cordão amarelo-azul (aluno Instrutor) 2 anos;
7º - Cordão verde-amarelo-azul (aluno formado) 2 a 3 anos;
8º - Cordão branco-verde (monitor) 3 a 5 anos;
9º - Cordão branco-amarelo (professor) título postulado pelo trabalho realizado na capoeira;
10º - Cordão branco-azul (contra-mestre) título postulado pelo mestre responsável do grupo;
11º - Cordão branco (mestre) título postulado pelo reconhecimento dos mestres mais antigos da Sociedade Capoeirítica. 

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