Artigo: um corpo, uma casa

quinta-feira, 14 de novembro de 2019
por Igor Fonseca*
Igor Fonseca (Arquivo AVS)
Igor Fonseca (Arquivo AVS)

Quando o assunto é a famosa e recorrente dor na coluna, é comum associar o problema com maus hábitos posturais, idade, genética, cirurgias ou esforço repetitivo. No entanto, poucas pessoas associam essas dores a aspectos emocionais que se expressam ou se escondem nesses sintomas. 

A coluna vertebral relaciona-se com a estrutura da personalidade e questões como estresse, ansiedade, medo, depressão podem afetar esse eixo de sustentação do corpo. Dizer que a coluna é o pilar da nossa existência não faz parte de um discurso espiritual ou transcendental, basta considerar que ela protege a medula espinhal e os nervos, ou seja, o delicado sistema nervoso.

Os mestres yogues dizem que qualquer doença física começa antes no sutil. Por mais que os problemas na coluna vertebral tenham diversas origens como degeneração dos discos intervertebrais, osteoporose, artrite, hérnias ou uma ergonomia equivocada na posição de trabalho, tem um aspecto negligenciado, mas extremamente importante, que é a relação mente-corpo.

A psicossomática é a ciência que estuda a somatização das emoções que se apresentam em forma de dores e doenças. Ela entende que se acumularmos alguma emoção sem dar a devida atenção, essa emoção irá sobrecarregar alguma parte do nosso corpo, gerando desconfortos. Não são apenas os problemas de coluna, mas todas as articulações relacionam-se à nossa capacidade de nos “articular” na vida. Problemas nas articulações relacionam-se à rigidez e à dificuldade de superar situações difíceis

Pessoas que estão sempre submetidas a estresse, que nunca se permitem momentos de relaxamento, mantêm os músculos em contração contínua, o que gera um consumo excessivo de oxigênio e produz um acúmulo de acido lático, que é o principal composto causador da dor muscular. 

A resposta de luta e fuga se caracteriza como a resposta do nosso sistema nervoso autônomo a estímulos externos de ameaça. É biológico e automático e comum a todos os animais, que ao se depararem com situações adversas ou perigosas, prepara todo o organismo para lutar ou fugir. A diferença é que os outros animais despertam o eixo do estresse com situações concretas, como por exemplo, a ameaça de fome, dor, raiva e medo de morrer como presa de outro animal.

Nós humanos não, pois além de acionarmos o eixo do estresse por situações concretas de risco, nós também acionamos a resposta de luta e fuga pelas expectativas, mágoas, ressentimentos, paranóias, ilusões, ignorâncias, vaidades, apegos e aversões. Ou seja, seu corpo acha que corre perigo de vida ao fugir de um pitbull raivoso da mesma forma que acha que corre risco de vida quando tem um prazo apertado para a entrega de um trabalho.

Platão dizia que o corpo é a prisão da alma, exatamente porque esse corpo que deveria dar suporte às maiores experiências, deixa de ser um aliado e se torna um obstáculo. Só que essa barreira é muito mais mental do que física, visto que uma mente que não está saudável pode comprometer a saúde como um todo.   

Incluem-se nesse contexto todas as “ites” que afetam as articulações e que estão relacionadas a situações desagradáveis a que a pessoa se submete mesmo não gostando, por não saber como resolver.
    Um evento emocionalmente desgastante pode aumentar a sensação dolorosa. Por isso, deve-se procurar o suporte da medicina para se iniciar um tratamento de reabilitação e de condicionamento físico, onde cada profissional através de um diagnóstico bem feito, e nem sempre rápido e fácil, irá propor a melhor estratégia para combater essa dor. 

Porém, o autoconhecimento surge aqui como parte fundamental do tratamento, incluindo nessa lista multidisciplinar de tratamento, a psicoterapia, meditação, yoga e outras terapias que deixam claro que saúde não é apenas bem estar morfológico mas um bem estar físico, mental, emocional, social e espiritual.

Nosso corpo é uma grande casa, e como todo lar ele guarda nossas maiores lembranças, sonhos, desejos e afetos. O conhecimento popular diz que paredes têm ouvidos, e nessa metáfora do corpo como casa, sua coluna é o principal pilar de sustentação e seus músculos são essas paredes, que “escutam” todas as experiências da sua vida, das vivências aos sentimentos manifestados e guardam todas essas informações muitas vezes de forma rígida. 

Cuidar dessa casa é fazer a manutenção constante de todos os aspectos ao invés de passar a vida inteira apenas contemplando a fachada. Transforme seu corpo no seu lar e como diria um grande mestre de yoga: cuide bem do seu corpo para que sua alma tenha prazer em habitá-lo.

* Igor Fonseca é instrutor do Samsara Estúdio de Yoga

 

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