Alessandra e Daniela: duas guerreiras admiradas e queridas

Vítimas de feminicídio lutaram pela arte e pela vida cultural de São Pedro da Serra
sábado, 19 de outubro de 2019
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
Alessandra Vaz (reprodução da web)
Alessandra Vaz (reprodução da web)

Duas mulheres guerreiras, vibrantes, admiradas e queridas. A morte de Daniela Mousinho e Alessandra Vaz, ambas de 47 anos, chocou os friburguenses pela monstruosidade do crime - elas foram vítimas do ódio feminicida de Rodrigo Marotti. O duplo assassinato deixou ainda mais perplexos e revoltados os moradores de São Pedro da Serra, onde elas moraram por muitos anos e deixaram uma legião de fãs e amigos.

Pernambucana de Recife, Daniela (foto) era conhecida pelo sorriso fácil, a voz marcante e o entusiasmo com que divulgava o trabalho dos artistas locais. A “moça das cabras”, como chegou a ser conhecida, adorava bichos, não parava de fazer origamis e tinha no artesanato uma de suas paixões - assim como Alessandra, uma de suas melhores amigas e com quem começou a trabalhar na loja de Mury há cerca de dois meses. 

"Toda a paz do universo”

Segundo Assis Júnior, ex-presidente da Associação dos Moradores de São Pedro da Serra (Amasps), as duas abraçaram a vila desde que se mudaram para lá. Daniela, por exemplo, era muito atuante na comunidade, agitadora cultural, e integrou a associação de moradores. “Ela era muito pró-ativa, sempre contribuiu nos eventos. Fizemos de tudo para ela voltar para São Pedro, todos seus amigos eram daqui, mas ela ainda relutava por conta do trabalho com a Alessandra, em Mury”, contou.

Alessandra, por sua vez, também conservou fortes ligações com São Pedro, mesmo depois de se mudar, há cerca de um ano, para Mury, onde encontrou espaço para montar sua fábrica de roupas com tecidos pintados à mão. São de autoria dela as placas de recepção aos turistas, com o slogan “Bem-vindo a São Pedro: toda a paz do universo” (foto).

Artista plástica, estilista, decoradora, paisagista, mulher independente, de bom gosto, viajada, ativista, workaholic, Alessandra (foto) era considerada uma profissional extremamente talentosa, além de bem-sucedida. Mineira de Poços de Caldas, já na infância Alessandra revelou talento com desenhos e pinturas. Aos 21 anos, inaugurou uma loja de decoração e artesanatos que eram garimpados pelo mundo: a “Arte & Luz”. De tanto flertar com a arte alheia, Alessandra sentiu a necessidade de explorar seu lado artístico.

 

Autodidata, criou técnicas texturizadas originais, aplicando flores e folhas que ganhavam aspecto fossilizado com a ajuda de uma espátula. Assim nascia a sua coleção “Vilarejo”. Em seguida, criou a série “Círculos”, após pesquisas e experimentos com formas geométricas, placas de MDF e tintas. Com suas coleções prontas, chegou a vez de ganhar a estrada. Passou quatro anos divulgando sua arte pelo país. Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Prado, Vitória, Belo Horizonte, Tiradentes, São Paulo e Rio de Janeiro foram algumas cidades onde Alessandra expôs seus trabalhos. De volta ao Rio, a artista incorporou a pop art em seu trabalho, fazendo uma releitura de seus ídolos e ícones. A fotografia também invadiu sua arte, despertando outros olhares sobre a cena urbana. O abstrato passou a ser outra fonte de inspiração da artista, dando um charme a mais a objetos comuns, como bandejas, bancos, porta-retratos, porta-joias, caixinhas multiuso.

Em 2015 Alessandra inovou com o mundo digital, explorando ao máximo sua criatividade e as aplicações de cores, democratizando suas criações. Canecas, sandálias, sousplats e jogos americanos foram revestidos com talento e criatividade. Além das quatro lojas, ela costumava expor seus trabalhos em feiras conceituadas do Rio, como Babilônia Hype e Mundo Mix.

No site da artista, o poeta Tanussi Cardoso descreve: “Para Alessandra Vaz, a arte é o seu ar, sua fome e paixão. Assim, com suas imensas habilidades, ela simboliza a liberdade de criação que todo o verdadeiro artista necessita, em sua integração com o seu espaço-tempo-mundo, através de vários elementos: a sensualidade, que beira o erótico, o fantasioso, o imagético, o alegórico (quase kitsch)-, além da magia, da intensidade poética, da luminosidade, do grande sonho pictórico e energético, do amor.” Alessandra deixou um filho e Daniela, uma filha, ambos em torno de 20 anos.

TAGS: crime