Na cristaleira

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Sacrificar a bola ou as amizades eram opções terríveis

“Vai guardar na cristaleira?” era a pergunta que a gente fazia a algum garoto do grupo que tivesse uma bola e não quisesse cedê-la para jogarmos pelada. Claro que nenhum de nós jamais tinha visto uma cristaleira de verdade, mas assim era conhecido o armário de madeira com um vidro na porta que todas as casas do bairro orgulhosamente ostentavam no centro da sala. Dentro dele, refinadas taças de vidro barato e copos enfeitados com douradas filigranas de ouro. Era um luxo. Ali só as mães metiam as mãos, e assim mesmo apenas em ocasiões especiais, por exemplo, quando se recebia uma visita especial. Talvez no cinema já tivéssemos visto uma cristaleira autêntica, mas, como ao que mais a gente assistia era filme de caubói, acho a hipótese pouco provável. Nos faroestes, os bandidos não tinham grande educação, e os mocinhos eram apenas um pouquinho melhor. Todos bebiam uísque de uma golada só, num copo que não parecia em nada superior aos nossos. Muito nos decepcionavam os caubóis, mas, como disse Drummond, o “que se partiu, cristal não era”.

“Vai guardar na cristaleira?” foi a pergunta que tive vontade de fazer a uma jovem que passou por mim, dizendo à colega que não ia emprestar... Emprestar o quê? Não sei, não ouvi o resto da frase. Mas o pedacinho que ouvi foi o suficiente para me lembrar das cristaleiras de minha infância e de que o dono da bola, diante da insistência dos companheiros, acabava cedendo. Às vezes com visível má vontade, mas cedia, porque sacrificar a bola ou as amizades eram opções terríveis, mas a segunda era sem dúvida a pior das duas.

Tive vontade de ir atrás da moça e dizer a ela que emprestasse, fosse lá o que fosse. Afinal, uma boa amizade vale mais do que mil cristaleiras cheias de cristais, ainda que sejam cristais verdadeiros.

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Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

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