Discopédia sem censura: ditadura nunca mais

sexta-feira, 08 de janeiro de 2016
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Parte 3

Taiguara e o disco Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara

Ironicamente, em tupi, a palavra Taiguara significa “livre”. Algo que o cantor que carregara esse nome nunca pode ser com a censura da Ditadura Militar. Surgido na época dos festivais, o uruguaio radicado no Brasil teve cerca de 70 músicas vetadas pelos censores. Pianista além de cantor, Taiguara (1945-1996) se expressa em sua obra através de harmonias belíssimas, complementadas por sua voz suave e letras duras e poéticas.

Na década de 1960, o autor de “Que As Crianças Cantem Livres” lançou seis discos. Um, inclusive, chamado O Vencedor de Festivais (1968), com título atentando para a popularidade do cantor. Ainda que nessa época criticasse a ditadura com suas letras de protesto, foi na década seguinte que a situação começou a piorar para Taiguara.

Com mais cinco discos lançados em sua carreira, somando agora 11, em 1973 Taiguara optou pelo autoexílio, não suportando mais suas músicas sendo censuradas e a pressão da ditadura. Na Inglaterra, o cantor aprofundou seus estudos em música e seus ideais políticos e, assim, gravou mais uma obra: Let The Children Hear The Music (1974), o primeiro álbum estrangeiro de um brasileiro censurado no país.

Sem desistir, Taiguara voltou ao Brasil em 1975, ano em que gravou seu trabalho mais ousado e memorável, o disco Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara; lançado no ano seguinte. Contando com os melhores músicos do Clube da Esquina (Toninho Horta, Wagner Tiso, Novelli, entre outros) e também Hermeto Pascoal, Taiguara fez um LP criticando a ditadura de forma muito poética, influenciado pelo livro Quarup, de Antônio Callado.

O resultado foi o pior esperado. Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara foi retirado das prateleiras 72 horas após seu lançamento. O super produzido show de lançamento, marcado para o dia 1º de maio, foi censurado pelo mesmo motivo do disco: ter, segundo a censura, teor subversivo. Com mais essa perseguição, Taiguara teve de entregar os pontos e, pela segunda vez, partiu para o exílio.

Morando nesse tempo entre a Europa e a África, o músico nunca mais teve sucesso comercial como tivera antes, com músicas como “Hoje” e “Universo do Teu Corpo”, quando voltou ao país, já na década de 1980. Só tocou nas rádios de novo em programas do estilo “túnel do tempo” e “momento saudade”.

Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara só seria lançado de novo em 1980, mas no Japão. No Brasil, o disco só voltou a circular em 2013, quase 40 anos depois de seu lançamento, quando seus direitos foram comprados pela gravadora Kuarup. Apesar de ter virado uma lenda e hoje ser parte da história da música e do tempo da ditadura no país, Imyra marcou o enterro da carreira de Taiguara. Um álbum denso, muito bonito e de qualidade ímpar, o disco merece ser ouvido, tanto por sua história, como pela qualidade sonora e o caráter antropológico das músicas.

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